por Fredi Jon
Aprendi ao longo da vida que todo ser humano nasce ostra. Não por vocação marinha, mas por necessidade existencial. Somos sensíveis demais para o mundo que nos recebe e, cedo, entendemos que sentir tudo tem custo. O tempo faz seu trabalho silencioso: lança areia. Frustrações, ausências, afetos adiados. Para sobreviver, fechamos a concha. Chamamos isso de maturidade. Em muitos casos, é apenas cansaço bem organizado.
A serenata surge quando a alma está protegida demais para continuar viva e ferida demais para se abrir sozinha.
É exatamente nesse território que atuo há décadas como músico e fundador da Serenata & Cia, levando música a lugares onde o entretenimento não costuma entrar: hospitais, lutos, aniversários silenciosos, despedidas, reconciliações tardias. Não canto para plateias, mas para pessoas em estado bruto. E a experiência me permite afirmar: a música verdadeira não adorna a vida — ela a atravessa.
A serenata não pede licença. Entra como o grão de areia que a ostra jamais convidaria, mas sem o qual não existe pérola. Quando a música começa, o controle falha. A compostura tropeça. A concha se abre, contrariada, e o que estava escondido aparece.
O que testemunho repetidas vezes é que as pessoas não choram pela música em si. Choram porque alguém parou. Olhou. Dedicou tempo, presença e intenção num mundo que quase nunca faz isso. A serenata não cria emoções: ela acende a luz de um depósito emocional que a pessoa jurava vazio.
Uma homenagem tem o poder de desmontar personagens. O adulto racional reencontra o filho confuso. O durão descobre que precisa de abraço. O que “não chora” percebe, constrangido, que os olhos não obedeceram ao acordo. Não é drama. É verdade escapando.
A música não resolve a vida — isso seria propaganda enganosa. Mas reorganiza o caos. Não apaga a dor, mas a torna habitável. Uma canção dedicada diz, sem discurso: “Você existiu para alguém. Você importou. Ainda importa.” E essa mensagem é profundamente subversiva num mundo que trata pessoas como descartáveis. A maioria não está cansada da vida, mas de atravessá-la sem ser vista.
Como a ostra, ninguém escolhe o grão de areia. A liberdade começa na resposta. A serenata funciona como o nácar: não remove a ferida, mas a envolve com sentido, beleza e presença. Transforma o incômodo em memória. O silêncio em algo que finalmente fala.
Depois de centenas, talvez milhares de homenagens, afirmo sem hesitar: ninguém atravessa uma serenata intacto. Algo cede. Algo amolece. Algo lembra ao corpo o que a mente tentou esquecer. As pessoas se recordam de quem amam, de quem foram antes de endurecer, de quem ainda podem ser. Algumas fazem as pazes com o tempo. Outras com alguém. Outras — as mais perigosas — consigo mesmas.

É por carregar todas essas histórias — vividas, presenciadas e atravessadas ao longo dos 25 anos de existência da Serenata & Cia — que resolvi escrever o livro “Fredi Jon — O Cantador de Histórias”. Não como vaidade autoral ou registro pessoal, mas como um gesto de partilha. Porque experiências assim não podem permanecer restritas a quem esteve presente em cada serenata. Elas precisam circular, ecoar, alcançar quem ainda não sabe nomear o que sente. O livro nasce da convicção de que essas vivências não pertencem apenas a mim, nem a quem as recebeu — pertencem a todos que ainda precisam lembrar que sentir não é excesso, é parte essencial de estar vivo.
No fundo, a serenata é um gesto filosófico com violão na mão. Ela afirma que sentir não é fraqueza, é evidência de vida. Que o afeto não é luxo, é necessidade básica. Que a alma humana, apesar de tudo, ainda responde quando alguém toca com verdade.
Nem toda ostra vira pérola. Algumas preferem chamar medo de força e desistência de maturidade. Mas quando uma serenata acontece de verdade, algo se desloca. Algo racha. Algo cede. E isso é perigoso.
Porque depois de se ver, se sentir e se reconhecer, não há retorno ao modo automático. A música passa. O violão se cala. A noite segue.
Mas quem foi atravessado por esse som nunca mais fecha a concha do mesmo jeito.
Talvez esse seja o maior risco — e o maior milagre — da serenata:
ela não salva, não resolve, não promete felicidade.
Ela apenas revela.
📖 Livro: Fredi Jon — O Cantador de Histórias
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